10 de out de 2014

O MUNDO DE HERMEN ANGLADA CAMARASA – QUIMERAS DA ARTE.

                     Gitana com Niño – Herman Anglada Camarasa

Nascido em 1871, em Barcelona na Catalunha, Espanha, representante do estilo pós-modernista espanhol, Hermenegildo, como é conhecido em sua terra natal, é um dos mais populares e bem sucedidos artistas espanhóis do início do século XX. Importante pintor da história catalã que viria a ser bastante conhecido fora da Espanha. Cidades como Paris, Barcelona, Madrid, Buenos Aires, Roma e Veneza são algumas que receberam suas criações e as exibiram. 


Hermen Anglada Camarasa.

Pessoa de caráter forte, dotado de um senso de humor inabalável, rebelde e inconformista, se auto impôs uma férrea disciplina desde criança já que tinha uma enorme ambição em ser um pintor renomado, e mostrava ainda pequeno uma paixão desenfreada pelas artes e pela pintura, talvez influenciado por seu pai, que na época era pintor decorativo de carruagens assim como exímio aquarelista. Infelizmente, o mesmo viria a falecer quando Anglada tinha apenas sete anos de idade, o que decorreria em uma época difícil para toda família. Alguns anos depois sua mãe o incentivara a trabalhar na casa de um familiar, um rico empresário, mas Anglada se nega terminantemente porque tinha como firme propósito realizar seu sonho de ser artista, o que dividiria sua família entre aqueles que se oporiam ao desenvolvimento de sua vocação artística e aqueles que o incentivariam. Frequentou o Ensino Médio, porém durante estes anos, talvez relacionado ao fato de querer convencer sua família de que seu desejo de seguir os estudos artísticos era sério, ficou gravemente enfermo e teve que repousar por um longo período. Aos quinze anos finalmente sua mãe concordou que ele iniciasse seus estudos Artísticos na renomada escola Llotja (Escola Superior de Arte e Design, um instituto público de ensino superior, herdeira da Escola Livre de Desenho, criado em 23 de janeiro de 1715, pelo Conselho de Comércio de Barcelona, o Llotja é a mais antiga escola de design da Espanha). Seus primeiros trabalhos seguiam claramente os cunhos acadêmicos de seu professor, o pintor impressionista espanhol, Modesto Urgell y Iglada.

Llotja-de-Barcelona-1870 escuela de Bellas Artes.


Modest Urgell i Inglada, 1839.

Paysage con figura - Modesto Urgell y Iglada.


Hermen Anglada Camarasa - Flores y copa  - 1889.

Hermen Anglada Camarasa - Paisaje. 1889. Óleo sobre lienzo, 100 x 150 cm. Museo Reina Sofía.

Um de seus primeiros trabalhos foi adquirido por Victor Balaguer, político, escritor, poeta e historiador catalão que a expôs junto a obras de outros artistas na inauguração da Biblioteca-Museu Victor Balaguer, na cidade de Barcelona, Catalunha, Espanha, o que lhe trouxe visibilidade. Durante os anos seguintes Anglada estaria envolvido em várias exposições coletivas de Belas Artes na Espanha. 

Victor Balaguer.

Hermen Anglada Camarasa - Paisatge amb pont – 1890.

Cabeza de viejo - 1895 - 1897.

Contudo o jovem Anglada desejava acima de tudo ter sucesso, ser reconhecido, então aos 23 anos logrou que a reconhecida galeria de Arte “Sala Parés” expusesse suas obras. Assim, em 1894 conseguiu mostrar algumas de suas obras em uma das salas da galeria, para a qual idealizou e fez imprimir panfletos de divulgação das mesmas a serem distribuídos entre os visitantes. Porém, a mostra não teve a repercussão esperada por Anglada, já que outro pintor catalão, Ramón Casas que expunha obras em outra sala na mesma galeria, fez um enorme sucesso com seu quadro “El Garrote Vil” se tornando o protagonista daquela galeria naquela data.


Sala Parrés – Barcelona.

Ramón Casas – Selfportrait.

Ramón Casas  - El Garrote Vil -  1894.

Neste mesmo ano Anglada decide mudar-se para Paris. Uma vez na capital francesa, começou a frequentar aulas de arte na “Académie Julian”, durante o dia, e na “Académie Colarossi” a noite. Nos primeiros anos em Paris, viveu alguns momentos difíceis, apesar de poder contar com o apoio financeiro de um familiar que lá residia. 

Académie Julian - Paris.

               Cours de modèle vivant, atelier des garçons, Académie Julian.

Académie Colarossi – Panfleto publicitário.

Academie - Calorossi modelo vivo.

Em suas aulas noturnas na Academia Colarossi conheceu o artista peruano Carlos Baca-Flor, que o introduziria aos modernos meios artísticos da cidade às margens do Sena, fazendo-o descobrir a vida noturna deslumbrante e sedutora de Paris com cabarés, cafés e entretenimentos. A partir desse momento, cercado por neo-impressionistas e simbolistas, Anglada começou a realizar obras que retratavam com maestria a vida noturna parisiense galopante da Belle Époque, repleta de mulheres sensuais, o que ele representou como sutis e etéreas figuras femininas, seguindo o arquétipo da ”femme fatale”.

Mujer de noche en París - 1898.

París la nuit - c. 1900.

 El casino de Paris 1900.

Blanquita 1902.

Champs Elysées. 1904.

Le paon blanc, 1904.

A sua pintura acusa a influência marcante de artistas como Toulouse Lautrec, Gustav Klimt e Van Dongen. Mas, a verdadeira transformação em seu estilo se daria com a chegada a capital francesa do balé russo Diaghilev, com os excepcionais bailarinos, Nijinsky e Pavlova. Este evento social artístico viría a revolucionar os gostos e costumes parisienses da época. Anglada ficou profundamente impactado diante dos cenários e figurinos, com as cores vivas em tons de laranja, fúcsia e verde, tanto que os seus retratos femininos em tons mais pálidos deram lugar as matizes multicoloridas. 

La Gata Rosa – 1908.

La chica Inglesa - 1908.

Los ópalos. 1904. Óleo sobre tabla.

Mur céramique, 1904.

Friso valenciano - 1905 – 1906.

Valencia 1910.

Ao romper do novo século, Anglada Camarasa já é uma figura respeitada e admirada no mundo da arte parisiense, cujas obras despertam o interesse de colecionadores como o compositor René Castera. Foi precisamente o músico que o apresentou aos círculos burgueses de Paris, os quais lhe fariam inúmeras encomendas.

Mademoiselle, c. 1900-1904.


Papallona de nit, 1913.

Sonia de Klamery, Comtessa de Pradere - 1913.


No ano de 1900, durante uma estadia em Barcelona, Anglada mais uma vez organizaria uma exposição na “Sala Parés”, porém desta vez uma exposição individual, feito incomum para tão jovem artista. Em um esforço para agradar a todos, o artista decidiu trazer sua própria visão pictórica da noite e boémia de Paris com uma seleção de desenhos acadêmicos, para deixar claro que, era exímio desenhista embora suas pinturas pudessem indicar o contrário. Mostrou através de suas novas obras o que tinha aprendido na capital francesa e causou grande exaltação por parte do público, dentre eles o ainda muito jovem Pablo Picasso, assim como conseguiu lograr críticas favoráveis dos críticos de arte Raimon Casellas e Alfredo Opisso.

Grupo de Valencianas-Dibujo.

Desnudo bajo la parra, 1909.

Dibujo preparatorio para Desnudo bajo la parra 1909.

Detalle de la Granadina - 1914.

Escena gitana 1901.

Reclining-nude.

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial sua carreira sofreria uma reviravolta. Com metade da Europa imersa em uma sangrenta guerra, e a força das novas vanguardas artísticas em expansão, seu trabalho foi relegado para segundo lugar no continente, porém nos EUA seus trabalhos começaram a chamar a atenção de Archer Huntington, fundador da “Hispanic Society of New York”, e defensor do trabalho de outros dois artistas espanhóis: Sorolla e Zuloaga. Ao mesmo tempo, em países como a Argentina, seu trabalho também viveria um grande momento, graças à divulgação feita por artistas sul americanos que haviam sido seus alunos na "Academia Vitti" de Paris.

Hermen Anglada Camarasa Hermen  entre sus alumnos.


Hispanic Society of America New York.


Archer M. Huntington.

Depois da Grande Guerra, Anglada se estabeleceria em Mallorca, especificamente em “Port de Pollença”, onde desfrutou de alguns anos de aposentadoria até meados dos anos 20. Seu trabalho artístico é invadido por belíssimas paisagens e marinhas mantendo, porém seu cromatismo e suas pinceladas características. As árvores, as rochas, a baía se tornaram protagonistas de suas pinturas. O crepúsculo e as paisagens iluminadas por um Sol cálido típico das costas de Mallorca começam a dividir espaço em suas obras com lindos arranjos florais em vasos, porém Anglada ainda necessitava de um pouco de obscuridade para suas iridescências e a encontrou no fundo do mar, nos revelando a vida marinha em todas as suas cores e nuances.

  Llegada de la romería del arroz. Museo Reina Sofía.

La higuera 1917.

Palma de Mallorca.

Bóquer 1920 -36.


Flores y Frutos - 1940.

Fons de mar - c 1927 - 1928.

Sua Iconografia nos revela festas, mulheres em trajes regionais, ciganas, paisagens de Pollença, Mallorca, a noite parisiense, temas equestres, danças espanholas, temas orientais, pinturas efêmeras, cheias de espectros de luz e de sombras. Sua pintura tem um poder expressivo incrível, tem movimento, podemos quase escutar o som frenético das castanholas das dancarinas de Zambra, dança flamenca dos ciganos, podemos visualizá-las envolvidas pelo ritmo “caliente”. Suas cenas noturnas iridescentes da Belle Epóque parisiense, seus cafés e cabarés retratam com maestria o efeito produzido pela iluminação elétrica, que havia chegado para substituir a iluminação de lampiões a gás.

El tango de la corona. Obra de Anglada Camarasa 1910.


Feria en Valencia 1910.

Zambra.

Chula de Ojos Verdes - 1914.            Retrato de Leticia Bosch 1922.

Sevillana 1911-12.                     


                 Moulin Rouge. 

La Cafeteria 1904.       


El Jardín Parisino.

Caballo y gallo – 1904.

Baile gitano c. 1914 – 1921.

La Rondalla de jaca – 1910.

                        La Higuera de la huerta, invierno. Mallorca 1918.


La-costa-del-colomer – 1927.


Grande parte da sua obra está ligada ao modernismo, e, fiel a este estilo artístico, os valores cromáticos de suas obras são suntuosos e ornamentais. Seu trabalho é conhecido pela gama de tonalidades escolhidas com maestria revelando cores presentes na natureza, em combinações harmônicas que ressaltam ainda mais a beleza das figuras e paisagens representadas. Muitas vezes beira ao “colorismo artístico”, dando preferência às cores em detrimento dos objetos, substituindo as relações de valor pelas relações de tonalidade. Observamos em suas pinturas a preeminência da força sobre a forma, a subordinação da linha à cor.

Gruta en el fondo del mar. 1927.

Jardí amb xiprers – 1930.

Gitanas con perros 1922.

La Sibila - c.1913.

Ver Luisiant-1904.


Quando a Guerra civil espanhola eclodiu, Anglada, republicano e maçom, encontrava-se em Barcelona, porém com o avanço e a vitória das tropas de Franco, foi obrigado a se exilar na França. Voltaria em definitivo a Espanha em 1948, se estabelecendo novamente em Port de Polença, onde viria a falecer em sua casa aos 88 anos, no ano de 1959. Lá, em sua homenagem ergueram uma escultura de bronze no “Pine Walk”. A casa onde vivia foi transformada em museu, o “Museo Anglada Camarasa”.

Monumento a Hermen Anglasa Camarasa em Pine Walk Port de Polença, Espanha.

Fiesta Valenciana.


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