23 de nov de 2012

MODIGLIANI – A SÍNTESE DE UM ARTÍSTA TRÁGICO

 Amedeo Modigliani
 
Foi como se tivesse vivido há muito tempo. Foi como se tivesse vivido muito tempo. Os dados que se têm de sua biografia mal dão conta do que foi a aventura de sua existência. A biografia não explica a obra que deixou. E a obra é irredutível a rótulos em termos de escolas e tendências. Por isso, poucos se arriscam a responder, além dos fatos conhecidos, à pergunta aparentemente retórica: quem foi Amedeo Modigliani?
 
Amedeo Modigliani

Amedeo Clemente Modigliani foi um importante pintor e escultor italiano. Nasceu em 12 de julho de 1884, em Livorno, na Toscana. Sua família pertencia à burguesia judaica. Na época do nascimento de Modigliani, ela passava por uma situação financeira, devido a uma crise econômica na Itália, e a empresa da família abriu falência. Se diz que foi o nascimento de Amedeo que salvou a família da ruína total, pois, de acordo com uma lei antiga, os credores não podiam tomar a cama de uma mulher grávida ou de uma mãe com um filho recém-nascido. Os oficiais de justiça entraram na casa da família, justamente quando sua mãe entrou em trabalho de parto. A família então protegeu seus pertences mais valiosos colocando-os por cima da cama da parturiente.
 
 
1.Pais de Modigliani         2.Modigliani com enfermeira     3.Casa em Livorno
 
A mãe Eugénie Garsin, descendia de uma família de judeus sefaraditas estabelecida em Marselha, na França, cujas origens remontam ao filósofo Espinosa. A figura materna representou, com certeza, papel importante na formação do menino, o último e mais frágil dos irmãos. Viva, decidida, culta, de mente aberta, Eugénie esforçou-se para que a educação de seus filhos vencesse as estreitas fronteiras da província. Para ajudar nas despesas da casa ela começou a dar lições particulares e a fazer traduções. Modigliani cresce num ambiente com interesses literários e filosóficos, devido principalmente a ela e ao seu avô materno, Isaac Garsin.
 
Eugénie Garsin
 

Na infância, Amedeo sofreu de diversas doenças graves, que comprometeram sua saúde pelo resto da vida. No liceu de Livorno, onde o garoto estudava, os professores percebiam sua inclinação pelo desenho. Freqüentemente, porém, faltava às aulas. Motivo: doença. Em 1895, com onze anos, contrai pleurisia. Em 1898, febre tifóide com complicações pulmonares. Ocupa o tempo de repouso com leituras escolhidas pela mãe: poesia clássica e moderna, ensaios ricos de máximas, aforismos e sentenças (que tanto gostaria de citar de memória em conversas nos cafés de Paris), textos de história da arte.
 
Modigliani no Liceu de Livorno.

Modigliani no Liceu Guerrazzi, 1896.
 
Ameaçado pela tuberculose, da qual teve uma recaída em 1901 sua mãe é aconselhada a passar com ele uns tempos em regiões de climas mais amenos. Seguem assim para Capri, ao sul e depois para Nápoles e Florença. Naquela época, Florença não significava apenas artes plásticas. Era também um centro de inquietas discussões de filosofia e literatura. Em 1902 se matricula na “Scuola Libera di Nudo” em Florença. Porém, a pintura ocupava então um lugar quase secundário na atividade de Modigliani, posta de parte pelas intermináveis discussões que movimentavam as inquietas noites florentinas.
 
 Modigliani (primeiro plano) no estúdio de
Gino Romitti, 1902.
 
Em 1903, ele troca Florença por Veneza, em cuja " Scuola Líbera di Nudo  Academia di Belle Arti di Venezia " se inscreveria  com o intuito de aperfeiçoar e aprofundar sua formação, uma vez que esta escola de arte se concentrava principalmente na elaboração do nu "au naturel" e não na composição acadêmica formal. Gostava de circular pelas ruelas da cidade, olhar horas a fio os mosaicos da Igreja de São Marcos ou as telas elegante de Carpaccio expostas nas gallerie. Para os colegas, era apenas um diletante, um moço erudito que freqüenta museus para afugentar o tédio.
 
 
                                     Modigliani ao chegar a Veneza
 

                 Placa diante do Studio de artes de Modigliani em Veneza
 
Modigliani sonhava com Paris. Como tantos outros, de outros países, via a sua terra natal como uma província confinada, cujo presente nada acrescentava às glórias artísticas do passado. Antes dele, um jovem catalão realizou esse sonho em 1900. Chamava-se Pablo Picasso. Em 1904, foi a vez do italiano Brancusi. Finalmente em 1906, o espanhol Juan Gris, o russo Kandinsky e o italiano Modigliani seguiam rumo a cidade luz. Modigliani chegou a Paris quando a cidade ainda era o centro do mundo moderno, o lugar onde você tinha que estar para se tornar um artista. Lá, estudou na “Académie Colarossi”.
 
1.Modigliani chegando a Paris  2.Placa da “Académie Colarossi” 3.Fachada da Academia 4.Dentro da Academia em 1906.
 
Graças ao anti-semitismo francês (de uma espécie que na época era quase desconhecido em sua Itália natal), ele descobriu um sentido muito mais forte da identidade judaica, e seus amigos no mundo da arte de Paris eram principalmente judeus. Eles incluíram Soutine, Kisling, o escultor Lipchitz e do poeta Max Jacob - sua ligação real com o círculo em torno de Picasso.
 
Modigliani (esq.) ao lado de Picasso e Salmon.
 
 
Tornou-se um dos chamados “artistas malditos” da Escola de Paris, com seu temperamento desregrado tendendo a auto destruição. Figura carismática de grande beleza física e prodigiosa memória, marcava presença nos cafés de Montparnasse, recitando com brilho e expressão versos de Dante Alighieri e D’Annunzio, fazendo depois rápidos desenhos do ambiente e das pessoas, em troca de pequenas quantias ou de um copo de vinho. Seu apelido de infância, Modi, cuja pronúncia igualava-se à da palavra maudit (maldito em francês), começou a ser usado por alguns como trocadilho para amaldiçoado. Ao chamá-lo desse modo, conceituava-se seu estilo de vida, antes mesmo que fosse possível reconhecer o valor artístico de sua obra, definida pela ousadia e personalidade. Como outros pintores e artistas do seu tempo, viveu a experiência da extrema pobreza, e no seu caso, além de desfrutar da boêmia se tornaria alcoólatra e dependente de drogas. Dizem que ele nunca aceitou conselhos de ninguém e com certeza sabia como festejar. Tinha imensa paixão pela arte, pela vida e pelo o amor. Defendia suas idéias não se importando com o que outros viessem a dizer, era de uma autenticidade ferina.
 
Modigliani em seu Studio em Paris.
 
Conheceu o escultor romeno Constantin Brancusi que o estimulou a trocar os pincéis pelo cinzel e a exprimir no mármore sua visão da figura humana. Modigliani começou então a dedicar-se à escultura. Trabalhava com a convicção dos que descobrem uma nova verdade. O cubismo também causou-lhe profunda impressão. Admirava ainda a pintura de Cézanne. A arte africana e as reminiscências da pintura sienesa dariam aos seus trabalhos de escultura as características principais. O alto preço do material e sua péssima situação financeira e de saúde, o fizeram retomar a pintura. Graças porém à sua experiência como escultor, Modigliani pôde expandir, na pintura, seus verdadeiros meios de expressão e completar sua procura de um ideal plástico. Da arte dos povos africanos, reteve o sistemático alongamento dos rostos, o tratamento geométrico do pescoço, o volume decidido e retilíneo do nariz - que tanto caracterizam seus retratos.
 
 Constantin Bracusi

 Escultura de Modigliani

Escultura de Modigliani
 
Por meio dos companheiros de arte, conheceu o poeta polaco Léopold Zborowski, que tinha um pequeno negócio de quadros na Rue Joseph Bara. Zbo - como era chamado - foi para Modigliani um empresário, um companheiro, um cúmplice - um amigo. Enquanto o pintor trabalhava ou vagabundeava, Zbo, com suas telas debaixo do braço, tentava enternecer e persuadir os grandes, os verdadeiros marchands para que comprassem as obras do jovem italiano desconhecido. Freqüentemente em vão. Constantemente, o polonês voltava silencioso, com os olhos em lágrimas. Contudo, aos poucos, seus esforços deram frutos. Zbo se tornaria seu melhor e mais devotado amigo, além de incentivador e marchand.
 Leopold Zborowsky e Hanka

 Portrait de Zborowsky feito por Modigliani

 Leopold Zborowsky
 
Em 1909, entrou no Salão dos independentes com “O Violoncelista”. Os temas preferidos de Modigliani foram os retratos e os nus femininos com modelos.
                          
                                  Estudo para Violoncelista, 1909

 
Violoncelista II
 
 
"Nude" Museu Guggenheim, 1917.
 

Em 1917, fez sua primeira exposição individual na Galeria Weil de Paris. A exposição, que durou apenas um dia, gerou muita polêmica, pois os nus pintados por Modigliani chocaram o público. A sensualidade lânguida, os lábios entreabertos e peles rosadas a vista, faziam o público sentir não tanto à indecência, porém o embaraçosamente íntimo. Havia algo de voyeurismo em suas pinturas e as más línguas da época diziam estarem suas modelos tão à vontade sem trajes uma vez que foram por ele desnudadas antes de serem retratadas.
 
Cartaz anunciando sua exposição

                         
                               "Reclining Nude", Amedeo Modigliani.
Modigliani teve, por dois anos, uma complicada relação com a jornalista  e poetisa inglesa Beatrice Hastings, de quem dependeria para o sustento e que se tornaria sua modelo e musa no período.
Beatrice Hastings

 
Portrait de Beatrice Hastings
 
Foi em junho de 1917, que o destino aproximou Modigliani da jovem que seria sua companheira para além da morte: Jeanne Hébuterne de 19 anos. Se apaixonaram perdidamente e passaram a viver no 8 Rue de la Grande Chaumière, alugado por Zborowski. Ele a amou e a pintou com toda a doçura de que era capaz. Procurou poupá-la ao máximo de suas próprias explosões de cólera, da ira que o ácool fazia subir à tona. Mas, não pôde poupá-la da fome, da miséria, da incerteza, agravadas pela má saúde. Com ela teve uma filha, Jeanne, em 1918.
Jeanne Hébuterne, 1917.


 
Jeanne Hébuterne no estúdio de Modigliani, 1918.
 
Portrait de Jeanne Hébuterne, 1919.

 
Actual Image of the building at 8th Rue de la  Grande Chaumière.
 
Complicações na saúde fizeram o pintor viajar para o sul da França com a esposa e a filha, a fim de recuperar-se, retornando a Paris ao final de 1918. Na noite de 24 de janeiro de 1920, aos 35 anos, Modigliani morre de tuberculose. Sua morte deixa Hébuterne aos 21 anos de idade em completo estado de choque, a primeira vista Zborowski parecia querer ajudá-la, mas finalmente ele se livra dela fazendo com que retorne a casa de seus pais, com os quais ela não mantivera contato desde que se juntou com Modigliani. Na mesma noite (26 de janeiro), quando seu irmão pensou que ela estava dormindo, ela abriu a janela e pulou do 5 º andar da casa paterna, grávida de nove meses, encontrando a morte. Seu corpo foi rapidamente velado e sepultado no cemitério de Bagneux, por seus pais, enquanto uma grande multidão assistia ao funeral de Modigliani no cemitério de Père Lachaise. Somente uma década depois, Jeanne e seu filho natimorto foram transladados para o cemitério de Père Lachaise, ao lado de Modigliani. Os jornais falaram sobre a tragédia de uma pobre criança que pulou de uma janela para seguir o seu amante. A filha, Jeanne, foi adotada pela irmã de Modigliani, residente em Florença, e escreve mais tarde uma importante biografia de seu pai. A primeira exposição retrospectiva da obra de Modigliani tem lugar na Galeria Montaigne.
 Jeanne Hébuterne aos 19 anos
 
 Portrait de Jeanne Hébuterne
 
Lápide de Jeanne Hébuterne e Modigliani
 
 
Jeanne, filha de Amedeo Modigliani e Jeanne Hébuterne
 
Acerca da vida do pintor e a tragédia que se abateu sobre o casal, em 1957 foi realizado o filme "Montparnasse 19" (Os amantes de Montparnasse), dirigido por Jacques Becker e interpretado por Gérard Philipe, Anouk Aimée, Lilli Palmer e Lino Ventura. Em 2004, foi apresentado o filme "Modigliani: Paixão pela Vida" contando a vida conturbada de Amadeo Modigliani e sua relação com Jeanne.
Andy Garcia em Modigliani, o filme.

                                      Cena do filme Modigliani

                                        Cena do filme Modigliani
 
Figuras alongadas, de pescoço comprido e rosto ovalado se tornariam características da pintura de Modigliani. O que talvez seja mais incomum sobre retratos de Modigliani não é o alongamento das figuras, mas os seus olhos. Especialmente em sua obra posterior, Modigliani, muitas vezes deixou os olhos em branco, o que é no mínimo intrigante, dada a ausência de uma "janela para a alma". No filme "Modigliani", onde o ator Andy Garcia, interpreta Amedeo Modigliani, há uma cena onde ele diz a Jeanne Hébuterne, interpretado por Elsa Zylberstein, "Chame-me de  Modi. Agora, vou pintar você, e se eu tiver sorte  um dia pintarei seus olhos. "
Lunia Czechovska by Amadeo Modigliani, 1919.

 Cena de Modigliani, o filme.
 
Valorizando cores como o vermelho e o amarelo, Modigliani buscou mostrar alguns sentimentos humanos ligados, principalmente, à tristeza e melancolia. Seus traços são simples, porém marcados por forte expressão. Seu admirável domínio da cor é completado por um quase despojamento da figura, em que muitos quiseram ver a marca de sua inclinação para a escultura.
 "Femme Rousse", Modigliani.

Modigliani painting.
 
Estudiosos de artes plásticas dizem que a obra de Modigliani não pode ser enquadrada em nenhuma escola ou movimento artístico da época. Afirmam, que suas pinturas e esculturas possuíam um estilo único e autônomo. Porém, algumas características do expressionismo (deformação, por exemplo) aparecem nas obras deste artista.
Auto Retrato, Modigliani
 
 
Nos últimos anos da vida, pinta quase só retratos e nus femininos. Modigliani buscou, em suas obras, "tirar a roupa" dos seres humanos e mostrar suas almas. A sensualidade de suas figuras não seriam encontradas em sua nudez, mas no movimento e alongamento que o pintor lhes daria. Modigliani tinha o raro dom de conseguir uma empatia entre o espectador e os seus retratos.
 Nude, Modigliani.

Nude, Modigliani.

"Nu couche de Dos", Modigliani
 
 
É a inteligencia de Modigliani que explica a variedade de sua obra. O que ele pretende dizer é que determina a linguagem a utilizar. Na aparente monotonia, Modigliani a cada vez renova sua paleta e reinventa uma linguagem. A vida nunca deixou de maravilhar o pintor, ainda que aos pouquinhos o fosse assassinando. Além disso, a "expressão de muda aceitação da vida", que define, segundo o próprio Modigliani, a alma de seus modelos, pode não satisfazer a quem aprecia emoções mais fortes. Mas, essas mesmas características fazem a singularidade e o encanto de sua obra.
 
Gypsi womam with a baby, 1919. National Gallery of Washington.

 
Women with black cravate, Modigliani.
 
É possível dizer da vida breve de Amedeo Modigliani que tenha sido uma sucessão de caprichos, bebedeiras e derrotas. De misérias e de tristezas. Muitos de seus contemporâneos o consideravam um boêmio conservador, que buscava uma impossível reconciliação entre a tradição e a audácia. Enganaram-se. O verdadeiro Modigliani passou perto deles, quase invisível, como um personagem de conto de fadas, que dissimula sua identidade como um príncipe com roupa de vagabundo. Um príncipe que um dia escreveu: "A vida é um dom. De poucos para muitos. Dos que sabem e possuem aos que nem sabem e nem possuem".
Modigliani soube. Modigliani possuiu.
                          Modigliani trabalhando em seu estúdio, Paris.

Andy Garcia no papel de Amedeo Modigliani.




 
 


10 comentários:

  1. Embora suas obras sejam reconhecidas atualmente e consideradas fascinantes, sua vida é um projeto bem mais intrigante...

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  2. Muito bom!!! Enriquecedor ! Obrigado por isto!

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  3. Obrigado a vocês que muito me honram com suas visitas e comentários! Bjs.

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  4. Assisti agora há pouco, "Os amantes de Montparnasse, onde Gerard Philipe faz um Modi irretocável. Lindo filme. Triste vida a do pintr

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  5. Modigliane foi um grande pintor, pena que foi tão irresponsável, autodestrutivo e psicótico. Quem soube aproveitar a fama [ e o melhor da sua alma doentia] foi Picasso, com suas mulheres, ternos caros e viagens.

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  6. Muito incrível, muito útil! Parabéns.

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  7. Acabei de assistir o filme e corri para saber mais sobre o artista. Parabéns pela matéria. Super elaborada !!!

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