7 de nov de 2018

SULAMITH WÜLFING – PINTORA DOS MUNDOS INTERMEDIÁRIOS





WORAN ICH FEST GLAUBE, IST ABER DIE UNSTERBLICHKEIT DER SEELE – DIE INDIVIDUALITÄT, DIE URALT IST UND NOCH SEHR VIEL VOR SICH HAT AN ENTFALTUNG, WEITERENTWICKLUNG. WIE SICH DAS ABER ALLES JENSEITS UNSERES WISSENS ABSPIELT UND ABGESPIELT HAT, DAS BLEIBT – JEDENFALLS JETZT NOCH – GEHEIMNIS”. - SULAMITH WÜLFING




ACREDITO FIRMEMENTE NA IMORTALIDADE DA ALMA – NA INDIVIDUALIDADE TÃO ANTIGA E COM TANTO A VIVER AINDA, POIS QUE ESTÁ EM CONSTANTE DESENVOLVIMENTO. MAS COMO TUDO ISSO ACONTECE E EVOLUI ALÉM DO NOSSO CONHECIMENTO PERMANECE - PELO MENOS AGORA - UM MISTÉRIO – SULAMITH WÜLFING





































Nascida em 11 de janeiro de 1901, em Eberfeld, província do Reno - Alemanha, filha de pais teosofistas, Karl e Hedwig Wülfing, ainda criança, Sulamith tinha visões de anjos, fadas, gnomos e espíritos da natureza. Ela começou a desenhar esses seres imateriais aos quatro anos de idade. Aos dezesseis, era considerada uma criança prodígio, que demostrava um absoluto senso de espaço enquanto desenhava. Sua alma de artista já possuía então um estilo definido, muito próprio, desenvolvido bem antes de receber seu primeiro treinamento formal na Escola de Artes em Wuppertal, Alemanha.



Aos 22 anos fez sua primeira exposição no “Elberfelder Museum”. Suas obras etéreas e enigmáticas desde o princípio retratavam contos de fadas ou assuntos místicos. Suas visões além-mundo a acompanharam por toda a sua vida e a inspiraram diretamente em suas pinturas. Ela relata que ao sentir o impulso para pintar não existem formas ou propósitos pré-estabelecidos em sua mente, sob seus pincéis simplesmente as figuras vão se revelando, saindo por detrás dos véus de sua imaginação, dos seus sentidos, de sua alma para timidamente e sem aviso voltar a se ocultar em um mundo impenetrável além dos sonhos.









Graduanda em 1921, no Instituto de Artes de Wuppertal, ela passaria a próxima década pintando suas visões de mundo. Neste local se inicia a história que conhecemos sobre sua trajetória de vida nas artes, pois é neste Instituto que ela conheceu seu futuro marido, um professor de arte chamado Otto Schulze. Otto e Sulamith casaram-se em 1932 quando ela tinha 31 anos. Logo após o casamento, seu marido, Otto Schulze Jr., fundou a Sulamith Wülfing Verlag (editora) promovendo a arte de sua esposa, a qual ele admirava, através de cartões postais e calendários, além dos álbuns. Os aficionados por seu trabalho, porém foram forçados a "descobri-la" aos poucos. 




Em uma exposição de seu trabalho, por um cartão postal ou ainda através de um calendário visto pertencente a um amigo. Nunca houve uma campanha maciça na mídia para contar ao mundo sobre sua arte, e Sulamith nunca possuiu o título de queridinha dos colecionadores como o foi, por exemplo, Berta Hummel. Este isolamento e dedicação às suas visões produziram uma coleção de trabalho mais singular e focada. Poucos ilustradores e artistas puderam se dizer imaculados pelas exigências de editores e de suas empresas, e poucos eram os que possuíam o apoio de familiares e fãs. A arte imaginária de Sulamith Wulfing daria nome ao título do seu livro lançado em 1978 – Arte Fantástica, título este bastante apropriado. Sua arte é bastante anímica, permeada por um véu espiritual que exala calma e serenidade, raramente encontradas na arte ilustrativa de então.













Durante a Segunda Guerra Mundial, Otto foi convocado para servir seu país na frente russa, deixando Sulamith e seu filho para trás em uma Alemanha em guerra. Foi nessa época que a cidade de Wuppertal, onde ela e seu filho viviam, foi bombardeada, destruindo sua casa, assim como a maioria de suas obras de arte, muitos dos quais por não haver cópias se perderam para sempre. Depois de ver tudo extraviado, sua vida se tornaria muito mais difícil, devido a todos os tristes acontecimentos e da notícia que receberia do governo alemão de que seu marido havia morrido no Front.  Aos 22 anos, deprimida e sem opções, Sulamith reuniu seus dois familiares restantes, seu filho e mãe, e fugiu para a França.
















Foi durante seu tempo na França que conheceu e fez amizade com Jidda Krishnamurti, um filósofo, escritor, orador e educador indiano, espiritualizado e também integrante da Sociedade teosófica. O mesmo a ajudou orientando-a a se centrar em si, ensinando-lhe meditação, o conhecimento da natureza da mente, bem como a reconhecer a natureza das pessoas. Sulamith relataria mais tarde que sentiu nitidamente a presença de seu amigo e mentor espiritual, Jiddu Krishnamurti, protegendo-os e mantendo-os longe dos campos de concentração








A atmosfera do trabalho de Sulamith variava entre serenidade e profunda melancolia, mas depois de um tempo e sempre em meditação ela começou a melhorar conseguindo pintar e criar com mais frequência. Sua coleção de arte estava se acumulando novamente, no entanto, em detrimento da guerra, ela não foi capaz de distribuir seus trabalhos como anteriormente, mas apesar de todos os infortúnios conseguiu se sentir relativamente feliz.












No ano de 1945, no entanto, sua vida mudou drasticamente para melhor. Em 25 de dezembro daquele ano, ela descobriu que seu marido Otto não havia falecido e a família se reuniu novamente. Com a volta de Otto e o final da segunda Guerra, puderam voltar à Alemanha e aos poucos retomar a Editora, reconstruindo a vida que haviam deixado destruída e para trás.
















A família havia experimentado uma série de grandes eventos trágicos, a suposta morte de Otto, os interrogatórios aos quais Sulamith fora submetida, tanto por nazistas, que consideravam sua arte depravada e suas crenças espirituais e filosoficas de vida uma afronta ao Terceiro Reich, e, portanto condenável aos campos de concentração e a morte, quanto no pós-guerra, pelos aliados, que, por encontrarem muitos de seus cartões postais retratando anjos, escondidos nos pertences dos soldados alemães, a consideravam parte do sistema nazista. Em meio a todos estes acontecimentos porém, Sulamith teve êxito em reter tanto a sua filosofia que lhe edificava a alma, quanto suas crenças pessoais que davam força ao seu ser e com ambas ela alicerçou suas obras.






O sentimento da conexão essencial entre a forma e a visão espiritual caracterizou o trabalho ao longo de sua vida artística. As imagens angustiantes, detalhadas e significativas de um mundo magicamente flutuante tomaram forma sob suas mãos talentosas.

Sulamith Wülfing mantinhas laços de amizade com as famílias Fidus e Vögeler. Ela também tinha conexões com os círculos teosóficos e espiritualistas ao redor de Krishnamurti. Nos anos cinquenta, ela inspirou o designer de palco (Bühnenbildner) de Wuppertal, Heinrich Wendel, e o maestro Hartmut Klug com suas obras e visões. De tempos em tempos, um alto enviado do Vaticano buscava abruptamente uma longa entrevista com ela.










Sulamith Wülfing desaprovava a arte moderna que segundo ela era dura e fria como se fossem blocos de pedra sem vida. Sua capacidade especial de sentir e capturar não apenas as características dos rostos humanos, mas também a natureza da pessoa representada não deixava espaço para truques experimentais, muito menos a desconsideração das leis estéticas. De novo e repetidamente, ela enfatizou que somente a arte nascida do profundo amor ao belo, ao que vinha da alma, se aplicaria.














À medida que envelhecia, seus quadros se tornaram mais sérios e mais relacionados à morte. A elegância e o poder visionário de suas representações dos Anjos são incontestáveis. Ela frequentemente tinha a sensação de que hordas abençoadas estavam voando pelo mundo com asas largas e agitadas. A beleza era para ela um campo de força espiritual, que tinha sua justificativa.





















Seu marido e admirador, descreveria os seus trabalhos da seguinte forma:

“Há inflorescências a brilhar qual gemas e pedras que possuem em si a luz das estrelas e o brilho de um olhar. Delicadas gramíneas a se balançarem ao vento e borboletas que volteiam através do azul celeste. Árvores acordam para a vida ameaçando estender seus galhos em direção ao céu ou curvando-se como guardiões em torno do seu âmago, a vida. Nos galhos se aninha a coruja, canta o tordo, se exercita o esquilo, permeados pelo espirito da árvore benevolente,  olhos estreitados,  ameaçadoramente atentos visando um Goblin que ousou se aproximar demais dela. Surgem os espíritos dos campos, florestas e prados, contando suas alegrias e tristezas, de toda uma existência; do nascimento a morte, tempos de luz e de escuridão – espelhando o mundo humano. E quase podemos ouvir o farfalhar dos tecidos, sentir os pesados brocados bordados a ouro, os véus esvoaçantes , a seda perene, os tecidos fluidos que se amoldam como espuma prateada em tornos dos delicados membros – e brilham as joias. Através das delicadas filigranas de uma janela gótica circular, reluz em tons dourados o sol poente, transformando o sótão em cor de sangue, refletindo os vitrais, horizontal e verticalmente, tornando viva a lei da vida- convertendo em espírito a pedra.
No entanto tudo isto são apenas os elementos em torno do que é essencial – o Homem.
Olhos fechados, que choram. Lábios que são pura bondade e outros dos quais sorvemos veneno. Cabelos soprados ao vento que envolvem faces iluminadas por um beijo.
Úteros a carregar embriões que virão a ser, suaves mãos a segurar os recém-nascidos, braços protetores a encobrir o símbolo: Crianças. Indícios de um amanhã ainda por vir, seres sobre os quais ainda não se pode escrever que nos penetram quando observamos as tenras sementes dentro de nós, vivas e viventes a suportar os sinais dos tempos sendo portadoras do futuro”. - Otto Schulze (Elberfeld).(tradução Delia Corecco Steiner)













Sulamith Wülfing declarou sobre sua arte: “Meus desenhos são uma representação visual dos meus sentimentos mais profundos - prazer, medo, tristeza, felicidade, humor. E, para pessoas sintonizadas com minhas composições, elas podem ser espelhos de suas próprias experiências.

É por isso que eu deixei a explicação a mercê do espectador, para que não tenha que se sentir vinculado a minha interpretação do que cada imagem deve ser. Para mim, não é uma questão de criar ilustrações para se adequar aos temas da rima infantil. Minhas ideias vêm de muitas fontes e, de acordo com minhas experiências pessoais, posso transformá-las nessas mágicas composições.
Meus anjos são meus conselheiros, líderes, companheiros, guardiões. E os anões, estes costumam me mostrar as pequenas ironias e outras coisas que me fazem sorrir mesmo nos eventos mais incríveis da vida”.(Tradução Delia Corecco Steiner)
A ideia de que sua arte dá a liberdade ao espectador de interpretá-la sem qualquer explicação real da artista, com exceção do título, é um conceito maravilhoso e libertador.


















Com sua arte simbolista, Sulamith Wülfing, assim como outros artistas , filósofos e escritores do início do século XX o fizeram, foi levada a mergulhar em sua própria psique na busca de respostas para o horror vivido durante a Guerra Mundial, conduzindo-a a retratar temas relevantes e pessoais. De certa forma, todos os acontecimentos acabaram por enriquecer seu subconsciente povoando-o com formas visionárias permitindo-lhe representar seus pensamentos e sentimentos mais íntimos. A arte proveniente desta época não se vinculava a qualquer prosa sobre contos de fadas ou mitos, porém não perdeu as características da arte de fantasia. Ela parecia estar tecendo uma mitologia pessoal usando suas visões do além-mundo como ponto de partida.























A ela se referiram muitas vezes como uma artista religiosa. Isso pode ser aplicado na medida em que suas imagens estejam localizadas além de todas as denominações. Em uma série em preto e branco ela retratou as Estações da Cruz. Nas imagens mais espirituais, os seres alados radiantes parecem tranquilizar os seres em dificuldade. Neste tocante ciclo de Cristo, que ela manteve em segredo por muito tempo, ela prova sua própria afirmação de que nenhum artista pode ignorar a pessoa histórica de Jesus de Nazaré.

















A maioria de seus personagens retrata o feminino. São mulheres, jovens, esbeltas e loiras de grandes e expressivos olhos azuis. Rostos pensativos por vezes tristes, seres etéreos apesar de em parte mundanos, envoltos em vestes fluídas, esvoaçantes e translúcidas, adornadas de joias de ouro, prata e pedrarias, às vezes ocultos por transparentes véus, tão finos e delicados que se assemelham a formas etéreas do divino. Elas vão se revelando ao ar livre, ao anoitecer, por entre bosques e prados ao luar, ou em interiores como castelos com detalhes vagamente góticos (arcos de pedra, vitrais resplandecentes, cadeiras ou tronos ricamente esculpidos). Os padrões das roupas e dos móveis parecem um rendilhado nórdico ou celta.

Muitas de suas pinturas abordam o tema da gravidez e da maternidade, enquanto outras ecoam a experiência da solidão e da separação, e outras ainda ensinam amor e respeito.

















Durante a vida da artista, mais de 200 de suas obras foram publicadas como cartões postais pela Sulamith Wülfing Verlag. Alguns de seus trabalhos foram baseados em contos de fadas, principalmente aqueles que foram escritos por Hans Christian Anderson.







A técnica largamente empregada por Sulamith em suas pinturas é o grafite com aquarela trazendo elegância e fluidez a narrativa. Os traços suaves e as pinceladas transluzentes e a escolha de matizes de cores amenas que se alternam entre luz e sobra, conferem ao seu trabalho luminosidade e beleza incontestáveis. Quase um quê de magia.













Sua obra de arte não apenas ajuda a contar uma história que não pode ser expressa em palavras, mas é capaz de transcender a barreira da língua entre sua língua materna alemã e a das nações que não falam alemão. As imagens usadas em suas pinturas foram de tal maneira expressas que, embora não se pudesse ler ou entender o título em alemão, o assunto é tão belamente pintado que a história é capaz de se expressar por si só.





















“Deixe ao artista seus segredos. Aceite de sua arte o que você vê...” - Com este pedido de discrição, Sulamith Wülfing tentou proteger sua vida e seu trabalho em 1985 em sua última grande exposição, para proteger sua privacidade. Em 20 de março de 1989, ela morreu com a idade de 88 anos em Wuppertal.


























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