27 de ago de 2014

ARTE E SUAS CURIOSIDADES.

DALI E DISNEY – UM ENCONTRO COM O DESTINO


O curta-metragem de animação “Destino” é resultado da união de dois grandes artistas - O desenhista, roteirista, cineasta e já rei da animação, o americano Walt Disney e o pintor espanhol surrealista Salvador Dali, gênios e precursores em suas respectivas áreas, planejaram um belo curta-metragem de animação — surrealista, naturalmente.

                                  Salvador Dalí e Walt Disney.


O contrato, de dois meses, firmado entre ambos em janeiro de 1946, permitia a Dalí uma dedicação completa à realização do projeto na "Disney Studios Burbank" (Califórnia), mas depois de oito meses o trabalho ainda não estava concluído. Ao mesmo tempo, “Fantasia”, a animação clássica de 1940, era rejeitada pelo público e a Disney perdeu mercado na Europa. O projeto foi interrompido por problemas financeiros durante a II Guerra Mundial e não havia boa perspectiva comercial para a obra. John Hench (um dos mais conceituados artistas do departamento de Animação da Disney, que na época foi chamado para ensinar a Salvador Dalí a técnica de animação dos estúdios) chegou a compilar uma animação de teste, com 17 segundos, na esperança de reanimar o interesse da Disney pelo projeto, mas o cancelamento da produção foi confirmado. Em seguida, seus estúdios foram requisitados pelo exército e acabaram produzindo “cartoons” para incentivar as tropas.

Salvador Dalí and Walt Disney.


                                             Dalí and Hench.

Cartoon da Disney criado para as tropas americanas – “Together we win”.

Por algum tempo, o projeto permaneceu secreto para grande parte do estúdio. Trabalhando num ateliê no terceiro andar do antigo “Animation Building” dos Estúdios Disney, Salvador Dalí e John Hench, estavam unidos criando uma nova técnica de animação, o equivalente cinematográfico a “paranoid critique” de Dalí. Este método, que teria pouca conexão com o título, é enormemente inspirado pelo trabalho de Freud no subconsciente e na inserção de imagens ocultas duplas no trabalho de arte. Dalí apresentaria uma imagem que o espectador reconheceria como sendo uma coisa…. E lentamente forçaria o espectador a visualizar formas estranhas na imagem, que podem eventualmente revelar algo novo.

                          "Animation Building” dos Estúdios Disney.

Sketch for Destiny by Dalí.

The same scene on animation film.

O trabalho do pintor catalão Salvador Dalí era preparar uma sequência de seis minutos combinando animação com dançarinos ao vivo e efeitos especiais para um filme no mesmo formato de “Fantasia”. Quando Dalí roteirizou “Destino” em sua forma livre de pensamento para se encaixar perfeitamente na canção do compositor mexicano Armando Dominguez, um cenário enigmático apareceu representando as ideias do artista sobre o amor e o que o tempo faz a ele.  O roteiro que criou com assistência de sua esposa Gala descreviam como os apaixonados em “Destino” seriam filmados com dançarinos de ballet ao vivo (em live-action) ao lado dos cenários ‘Daliescos’ repletos de estátuas, telefones, conchas e moedas. Eles estariam ‘lutando’ contra o tempo, na forma de um gigantesco relógio solar que emerge da grande face de pedra de Júpiter, que determina o destino de todos os romances humanos. Dalí dizia ser “Uma exposição mágica do problema da vida no Labirinto do Tempo” e na visão de Walt Disney se tratava de uma simples história da busca de uma jovem pelo verdadeiro amor. A balada romântica do curta “Destino” foi escrita pelo compositor mexicano Armando Dominguez e interpretado por Dora Luz.

                                Cenas da animação “Destiny”.

Dora Luz, cantora.

Armando Dominguez, compositor.

Dalí rapidamente adotou a rotina do estúdio. Por dois meses, ele chegou pontualmente todos os dias às 09h e 30min da manhã, e trabalhava em seu cavalete. O artista normalmente almoçava no restaurante executivo do estúdio – “Coral Room” – com Disney e Hench, ou com os empregados do estúdio conversando com sua mistura de línguas quase indecifrável: uma mistura de francês, espanhol, catalão e um “mal” inglês. Sua esposa e musa, Gala, frequentemente o acompanhava ao estúdio para inspirar seu marido. Quando ela estava lá, Dalí era mais produtivo, criando desenhos para serem utilizados junto à trilha musical pré-gravada.

Salvador Dali at Disney Studios.


Cena do curta "Destiny".

Cena do curta "Destiny".

Salvador Dali at Disney Studios.

Salvador Dali, Walt Disney, Gala, Lillian Bounds,esposas de Dali e Disney, respectivamente.


Combinar o Surrealismo com a animação era algo jamais visto aquela época, Disney queria que a animação deixasse de ser coisa de criança e se tornasse de vez uma forma de arte. É claro que, com o cancelamento de “Destino”, a chance de ganhar o reconhecimento seria perdida para sempre. “Destino” poderia ter modificado, à época, a forma de se ver e de se compreender a animação. Somente 58 anos depois, em 2003 “Destino” seria concluído.


Cena do curta "Destiny".


Cena do curta "Destiny".

Cena do curta "Destiny".


Em 1999, Roy Edward Disney, sobrinho de Walt Disney, encontrou o material e convidou o estúdio parisiense da Disney para dar continuidade ao trabalho. A direção ficou ao encargo de Dominique Monfery que convocou 25 animadores para retomarem os “storyboards” originais deixados por Salvador Dalí e John Hench. Como este último ainda estava vivo e conhecia profundamente a obra, serviu de orientador no término desta, baseando-se em notas de Gala Dalí (esposa de Salvador Dalí), assim como em suas próprias anotações. O resultado é uma animação que inclui imagens originais de Hench, cenários inspirados nas pinturas de Dalí e também animações feitas no computador. A animação deveria ser inserida como parte final no filme “Fantasia 2006”, posteriormente cancelado pela Disney.


Roy Edward Disney.

 Dominique Monfery.


"Destino" estreou então em dois de junho de 2003, no "Annecy International Animated Film" Festival” na França.  O Curta Metragem foi muito bem recebido ganhando vários prémios sendo inclusive indicado ao Oscar de 2004 na categoria de melhor curta de animação. 
Em 2007 foi exibido no Museu Tate Modern, como parte da exposição “Dalí & Film”, fez parte da exposição “Dalí”, no "LA County Museum Of Art", bem como em uma exposição do Museu “New York Modern Art” denominada “Dalí: Pintura e Cinema”, percorrendo ainda diversos outro Museus em exposições relacionadas ao artista Salvador Dalí.


Walt Disney and Salvador Dalí.

Infelizmente seus mentores, os inesquecíveis, Walt Disney (falecido em 1966) e Salvador Dalí (falecido em 1989) não chegariam a assistir a conclusão de seu trabalho conjunto.

                                      Cena do curta "Destiny".

“Destino” é uma história de amor. O curta de seis minutos conta a história de Chronos, a personificação do tempo e da incapacidade de realizar seu desejo de amor por uma mortal. A história segue enquanto a mulher dança, sem interrupção, conectada ao cenário surreal. As cenas misturam a iconografia das pinturas de Dalí com dança e metamorfose. Não há diálogo, mas a trilha sonora inclui música escrita pelo compositor mexicano Armando Dominguez, interpretada pela cantora Dora Luz.




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