“A normalidade desconsidera a beleza que a diferença nos
traz” – Faith Jegede
(tem dois irmãos autistas).
O VELADO REVELADO.
Iris
Grace pintando em seu jardim.
O que se esconde na alma humana? O quanto a beleza, a arte e
a sensibilidade podem aflorar em qualquer pessoa? O que faz com que alguns
venham a este mundo com dificuldades de interação, de comunicação? As
explicações vão desde a ciência clássica terminando na ciência espiritual,
porém certo é de que cada ser é especial, cada um de nós possui uma missão, um
caminho de vida, luz própria.
Iris
Grace em seu local favorito no jardim.
Sea
Angel – by Iris Grace.
Tenho convicção de que a arte mais do que qualquer coisa é
capaz de nos desvendar, de trazer a tona o melhor e o pior em nós, de forma
terapêutica, faz emergir nosso mundo interior. Nossos anseios, medos e dúvidas,
assim como nossas paixões afloram através das pinceladas, das texturas, das
linhas e das cores em um processo de autoconhecimento e cura espiritual.
Iris
Grace pintando aquarelas.
Music
at Sunrise by Iris Grace.
Blossom
in the Wind by Iris Grace.
Há sempre uma incerteza, uma delicadeza ao transitar pela
fragilidade alheia, porque sim, todos nós temos nossas vulnerabilidades, na
verdade, somos todos especiais de alguma forma, estejamos diagnosticados ou
não.
Little
Iris Grace
Equlibrium
by Iris Grace
Monsoon
by Iris Grace.
É através deste processo de criação que uma pequena menina
de cinco anos, identificada aos dois anos como portadora de Autismo nos revela
com delicadas pinceladas a sua alma. Elas nos falam de suavidade enquanto as
cores se mesclam, fundindo-se umas nas outras formando novas tonalidades e
nuances em uma harmonia perfeita.
Little
Iris Grace painting/ above - Explosion
of Colour/below – Raining Cats
Anima
by Iris Grace.
Willow
Grace by Iris Grace.
Tumpty
Tum By Iris Grace( but for me it looks like “Universe”)
Sempre em companhia de sua gatinha Thula, a pequena inglesa,
Iris Grace Halmshaw parece ser como qualquer outra criança de sua idade.
Sorridente, gosta de dançar na ponta dos pés, de ser princesa, de correr, de folhear
livros e de caminhar entre árvores e flores em dias ensolarados, porém seu
desabrochar está como preso em meio a um profundo silêncio.
Iris
e Thula
Iris
criando sendo observada por Thula
Iris
no jardim
Pintando
com Thula
sendo
“princesa” , com Thula
Sendo
apenas criança
Em seu
cantinho especial, criando, com Thula.
Descansando
com Thula porque ninguém é de ferro.
Na ausência de si
mesma que acaba por calar todo o seu ser, quase que interrompendo o fluxo de
vitalidade retido em seu interior, impedindo-a de converter em palavras seus
pensamentos. Iris Grace apenas recentemente aprendeu a falar. Junto com a
terapia da fala, seus pais gradualmente introduziram a pintura, e foi quando
descobriram seu talento incrível. Sua mãe, Arabella Carter-Johnson a incentivou
fornecendo-lhe as tintas na esperança de que Iris Grace fizesse alguns símbolos
no papel usando pincéis e cores e qual não foi sua surpresa ao perceber que
através da arte sua filha conseguia se expressar, conseguia contar-lhe um pouco
de si construindo uma ponte entre elas, mostrando uma compreensão de cor
admirável como que se brincasse com as mesmas, fazendo-as interagirem e se
fundirem revelando misteriosas paisagens envoltas em brumas, ora desvelando ora
vedando-nos a compreensão de suas sensíveis pinceladas fluídas. Com sua arte
Iris Grace é capaz de retratar os seus labirintos internos, revelando ao mundo os
sentimentos e percepções que os autistas mantêm aprisionados nas profundezas de
seu ser. Em suas pinturas Iris traduz as palavras não ditas, as frases inacabadas,
libertando-se das amarras físicas tornando-se soberana de si mesma.
Com
sua mãe, Arabella Carter-Johnson.
Iris
Grace – Pintando
Painting
a Lullaby and Kuendelea, paintings by Iris Grace.
Octavia
by Iris Grace.
The
Tale of Green by Iris Grace.
Arien
by Iris Grace
Carmen
Fantasy by Iris Grace
Motion
by Iris Grace
Iris
and Thula.
O autista não se deixa invadir, nem pede que o estimulem,
porém traz dentro de si todo um mundo que anseia por liberdade. Talvez este
universo interior seja de uma simplicidade incompreensível para os demais uma
vez que nele não existem mentiras nem dissimulações, somente verdades. Quiçá a
arte que se faz perceber pela linguagem visual e auditiva alcance o seu vasto
planalto interior de pensamentos objetivos fazendo com que consiga encontrar a
abstração da qual tanto necessita e com a qual ele poderá fazer a conexão
chegando ao outro lado, no qual nós nos encontramos. Não há, porém um lado
correto, somos todos, almas em constante evolução, mistérios impenetráveis,
isolados e próximos, luz e sombra.
Em seu
“atelier” – Iris Grace.
Dance
to the Oboe by Iris Grace.
As obras de Iris Grace têm sido comparadas por críticos e
colecionadores de arte as pinturas impressionistas de Monet. A mim pessoalmente,
lembram muito as aquarelas feitas na Antroposofia , arte terapia e pedagogia Waldorf, pela sua fluidez, suavidade
e por darem a impressão de serem etéreos. Além de impressionantes, os trabalhos
têm sido usados para chamar atenção para o problema do autismo no mundo
inteiro. O site desta pequena notável merece uma visita. Lá você conhecerá um
pouco mais de sua história e poderá comprar cartões postais de suas pinturas
auxiliando assim em seu tratamento.
Claude
Monet - 1914-17 Iris at the Sea-Rose Pond oil on canvas
Water
Dance by Iris Grace
Sunset - Waldorf Paintings.
Bluebells
by Iris Grace.
Velature
- R.Steiner Paintings – Antroposophy.
Cards by Iris Grace.
Observando as pinturas, mas também o meio ambiente e o lar
no qual vivem Iris Grace com sua gatinha Thula mais uma vez me vem à certeza de
que no mundo não há força maior do que o amor, que em seu abraço caloroso a tudo
envolve, e de que, independente de qualquer coisa, nós pais temos obrigação de
passa-lo incondicionalmente aos nossos filhos, e se assim o fizermos teremos
uma chance de construir um mundo onde a arte em todas as suas vertentes se
tornará realidade.
Um Cantinho feito com amor especialmente para chamar de "seu".
Ontem perdemos nossa melhor amiga, companheira fiel por quatorze anos, ela se foi, sucumbiu a doença que vinha lhe maltratando, foi ser luz no firmamento. Aqui uma singela homenagem ao melhor cão que já existiu.
Chiara.
Assim como o
nascer, o morrer é luta travada...
A morte
deixando um rastro de ausências, de vazios silenciosos..
Veio
devagar, quase imperceptível e foi tomando conta de você, embaçando o seu
olhar, apagando sua alegria, minando sua vitalidade, destruindo suas forças. No
final – só dor!
Tanta e tão
intensa que doía em nós, impotentes diante do seu olhar, de seu sofrimento.
Então hoje, você pôde partir, finalmente. Se foi com a mesma
dignidade e coragem com a qual você viveu. Assim como chegastes a nossa casa,
você se foi, um raio de luz, que durante muito tempo tudo iluminou e tornou
mais belo e agora que se foi, virou constelação.
Chiara
sendo banhada por sua melhor amiga, Vanessa com sua amiga Sol.
Chiara
Restam-nos as lembranças das horas felizes que se
multiplicavam a cada dia, dos passeios que você adorava e tão ansiosamente aguardava,
das ensolaradas tardes no atelier, você ao meu lado, ora deitada dormindo ao
som de alguma música suave, ora observando orelhas em pé o ir e vir de alguma
lagartixa ou o vagar de um inseto qualquer entre os raios de sol dourados do
entardecer. Ambas tão felizes em poder compartilhar momentos preciosos, envolvidas
pela arte e pelo verde jardim que você tanto amou.
Esperando
para passear
Dormindo no aconchego do atelier
Chiara
no atelier observando o jardim.
Chiara,
companhia constante ao meu lado no atelier.
Relembrarei com um sorriso no coração sua presença quando
íamos cozinhar e você surgia não sei de onde pedindo passagem, pleiteando um
lugarzinho somente seu, debaixo da mesinha de onde você me fitava tranquila e
feliz, prestando atenção a cada movimento meu, a cada detalhe culinário. Depois
de um tempinho, lá estava você adormecida, sonhando com os cheiros e aromas...
Chiara
pedindo para entrar na cozinha.
Chiara
sonhando.
Você que nunca foi ruidosa, que dominava a arte de pedir com
o olhar, implorando seus biscoitos de cereais ou os “bifinhos” da vovó.
Recordarei eternamente do som grave de seu latido que se fazia presente apenas
quando necessário ou então quando entravam micos e gatos alheios em nosso
jardim. Estes últimos, você ainda os tolerava, com uma ruga em sua testa, assim
como consentias os nossos gatos, mas os miquinhos, ah! Estes micos danados, lhe
tiravam a paz definitivamente...
Chiara
comendo um dos deliciosos “bifinhos” da
vovó, estrategicamente de costas para não correr o risco de ter de dividir.
Chiara
em posição ”apontar” escutando miados de gatos alheios.
Mico,
o “desassossego” de Chiara.
Chiara
estressada com os micos.
Sempre corajosa, temia somente as raras idas ao Veterinário
(que neste último mês foram tantas) e o som do “poderoso Zopf” sendo fabricado.
Massa
do“ Poderoso Zopf” fermentando, fase que Chiara temia.
Zopf
Bernês prontinho.
Evocarei seu sorriso canino toda vez que intuías que
andaríamos de carro porque era certeza de caminhadas por trilhas verdejantes e
passeios pela lagoa. Rememorarei suas traquinagens e pequenas bagunças não
obstante lembrarei sempre e também de sua inteligência, do seu porte elegante,
do seu caminhar, sempre ao meu lado ou esperando por mim. Você, que nunca me
falhou em nenhum único momento sequer, que seguiu firme e amorosa conosco por
entre perdas e dores, que não me abandonou nem por um minuto quando meu medo se
fez pânico, e que nunca, jamais me julgou.
Rabinho
abanando: vamos passear?
Devidamente
posicionada como copiloto.
Nosso
“Passeio Fibras” – Trilhas no parque do Cocó.
Sorriso
largo.
“Pit Stop” no riachinho da trilha
Inseparáveis
– Vanessa e Chiara.
Segundo
passeio predileto – lagoa.
Sorriso
ao chegar.
Vista da lagoa.
Abanando o rabinho para os Marrequinhos.
Saudando a Chiara.
Banquinho do descanso.
A espera de um sorvetinho!
(menos o da mamãe - de açaí)
Matutando
baguncinhas...
Fazendo
traquinagem no canteirinho da “mamãe”!
Fingindo
indiferença....
Ah,
este seu olhar...
Minha
doce Chiara.
Guardarei no meu coração por toda a eternidade seu olhar cor
de âmbar, o mais belo, profundo, amoroso e doce que já vi.
Chiara
Obrigado amiga minha, pelas alegrias, pelos risos que pude
dar, pela sua amizade, pelo seu amor incondicional, pela bondade ímpar, pela
fidelidade e por nos proteger, sempre, mesmo que fosse com sua vida.
Juntas sempre.
A morte é apenas passagem, uma curva mais acentuada em nossa
jornada de vida, e em algum lugar, algum dia, sei que nos reencontraremos,
todos nós.
Não lhe digo adeus, Chiara do meu coração, digo-lhe apenas,
até breve...